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segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Dama e a Serpente

*conto baseado na lenda da serpente do tanque.

Acalentamos sonhos à beira de rios gelados
A medida que a roda gira
Uma minúscula centelha a treva desafia...
E a roda gira... A roda gira.

Marion Zimmer Bradley


  
Há um pequeno lago onde moro, onde as lavadeiras buscam seu sustento lavando a roupas dos patrões lageanos, entoando canções que propagam antigos ensinamentos  e magias repletas de bondade. Escondem no simples e nobre oficio segredos que as condenariam ao ardor das maledicências. 
Junto com o por do sol fadigoso eu chego e permaneço escondido até a ultima lavadeira ir embora. Agora o manto da noite cai sobre esses campos. É quaresma, nenhum vivente temente a Deus fica fora de casa depois que anoitece. Contudo, não me tenha como um pagão aloucado,  sou cristão e devoto de Nossa Senhora das Lajens, e por isso enquanto caminho até o lago vou me benzendo e pedindo perdão. O  motivo pelo qual eu venho até aqui com certeza já condenou  minha sanidade e aos poucos também ira levar minha Alma. 
Permaneço imóvel em frente ao lago. O ar gelado castiga meus pulmões, causa arrepios. Queria ter medo, mas não consigo, fui tomado completamente pelo ardor do desconhecido, do inexplicável. O vento encarna minha agonia e escancara meu horror transformado em som. Ela sabe que estou a sua espera.  
 Ela insurge das águas geladas do lago a minha frente, seu corpo nu exibi uma brancura casta e mentirosa. Me abraça e acaricia minhas costas. Um cheiro de flores inflama minhas narinas entorpecendo meus sentidos. Percebo que de dentro do lago uma enorme serpente nos vigia. Foram assim todos os dias, e hoje quando termina a quaresma não poderia ser diferente. Com os olhos cor de café a bela menina me encara, e não diz uma palavra, nunca, não é necessário. Sua linguagem é a do toque, do aroma, do ato. 
 A lua cheia, agourenta, é testemunha de todo o alvoroço, lança seus raios de luminosidade tênue e esvaecida, caem sobre nós como espectadores displicentes, e junto com todo esplendor da natureza ao redor  tornam-se cúmplices deste crime sem precedentes.
Como ela é linda, a dama do lago, a senhora da serpente, ou será ela a própria? Longos cabelos negros caem sobre seus ombros e se estendem pelo chão até o leito do lago. Um sorriso convidativo se faz nos lábios que se abrem para um beijo intenso e demorado. Sinto seus dentes afiados mordiscando minha boca. desejá-la e como andar a beira de um abismo esperando que com um olhar ela me derrube. Não temo a queda, sei que antes que eu atinja o chão ela me puxara de volta para então me derrubar novamente.
Suavemente ela me leva até o lago, ele é o nosso leito, frio e vertiginoso. Abraça-me enquanto afundamos nas águas escuras e gélidas. Ele não parecia tão fundo olhando de fora. Seus braços me envolvem como serpentes em uma valsa desenfreada. Meu prazer explode em choro e se confunde com sua pele, com seu abraço que agora é de uma transparência assombrosa. Já não consigo respirar e nem tenho como voltar à superfície. Sou dela irrevogavelmente. No fundo do lago, onde outrora havia uma dama, descanso agora acompanhado somente da serpente.