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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Em pelo...

                            


                                   O lugar onde vivo o inverno é rigoroso. Às vezes mortal como a peste. Meu pai sempre me dizia “Para ser feliz me basta um prato de sopa quente e teu sorriso”. O frio castigou seus pulmões até que ele não aguentou mais. Às vezes acho que o que havia de melhor em mim morreu junto com ele. Não condeno minha mãe por se casar novamente, não é fácil viver sozinha com uma filha neste lugar. Contudo ela não poderia ter escolhido alguém pior, meu padrasto garante a lenha para manter o fogo acesso e mantimentos para nosso sustento. O restante do tempo ele preenche com sua tirania!                                                                                                            Para minha mãe, os regalos de uma vida ao lado de quem se ama deixaram de existir com a morte de meu pai. Agora ela chora baixinho de madrugada depois que meu padrasto adormece bêbado e satisfeito. Às vezes choro com ela, um choramingar abafado, Como se eu  pudesse ajudá-la a carregar o fardo de uma vida sem propósito, sem alegria. Essa rotina caótica acaba nos transformando de uma forma irrevogável.  
Vivemos uma era de trevas para as mulheres. Meu padrasto não me deixa esquecer. Com a voz asquerosa ele sussurra em meu ouvido:                                                                                                           
Quando você sangrar será minha.                                                                                                  
Sei que ele não esta mentindo. Junto ao seu olhar vejo sombras que vagam impregnadas de cobiça e devassidão. Ah muito quando olho para ele não enxergo mais o homem, só as tais sombras. 
Em uma manha de inverno acordei com os lençóis encharcados de sangue. Meu ventre anunciava que estava pronta para seguir a ordem natural da minha espécie. Juntei os vestígios da minha vergonha e fiz uma enorme fogueira no meio da floresta gelada. Dancei junto às labaredas crepitantes, onde somente estas nobres senhoras foram testemunhas do meu alvoroço. Lembrei das singelas cantigas que escondem em suas rimas nossas assombrosas tradições:                            


 "... O primeiro foi seu pai...                                                                                                                                                                                                                                                  o segundo seu irmão...                                                                                                                                                                                 o terceiro foi aquele...”


Que bom que não tenho irmãos. Quando voltei minha mãe me esperava com uma cesta repleta de caldas adocicadas, pães e frutas. Pediu que fossem levadas até a casa da minha vovozinha que fica do outro lado da floresta. Enquanto vestia meu xale vermelho escutei suas recomendações:    
         –  Não cheque perto dos lobos, não confie nos seus olhos! Eles mentem! – Acho que o mesmo conselho serve para os humanos.   
A floresta é amistosa, convidativa. Todos podem entrar, mas ela ira escolher aqueles que poderão sair. Nela tudo tem vida até o que não parece ter. Entre pinheiros centenários e arbustos cobertos de neve os olhos vermelhos do lobo se fazem iluminar. Ele me segue por todo o caminho, como um protetor afetuoso, escuto seu uivo cortando a noite e me junto a ele nesta canção, para que ele saiba que também tenho fome, sede e  desejos escondidos em instintos singelos , mas absolutos. Não temo meu companheiro de viagem. Ele me acompanha por um algum motivo e logo saberei, mesmo que custe minha vida ou minha sanidade.
Chego logo ao anoitecer na casa da minha vovozinha. O equinócio mostra seu poder na ventania berrante que embala flocos de brancura casta. Na chaminé alta uma fumaça densa mostra convidativa, que a lareira está a queimar. Apresso o passo e entro pela porta que estava destrancada. Aqueço-me frente à lareira que ilumina a casa escura. Na mesa os vestígios de um recente banquete, na taça um liquido vermelho e viscosos escorre pela borda.Percebo que não são lenhas que estão a estalar no fogo da lareira, são ossos!     
A porta do quarto se abre bruscamente, por onde surge meu padrasto com o desejo exacerbado no corpo nu. Ele sabia, estava a espreita. Tudo foi um plano seu, agora aqui no meio da floresta ele iria concretizar suas ameaças. Começa a rasgar minha roupa rosnando como um animal, declamando obscenidades que jamais poderei repetir. Fechei os olhos, estava paralisada pela raiva contida. Escuto o estouro seco da vidraça da janela ao nosso lado. Abro os olhos e vejo em cima do seu corpo um enorme lobo com os pelos oiriçados cobertos de neve. O devora sem clemência alguma. Antes mesmo do crime, o castigo. Por um momento me atormenta o destino do meu algoz, mas esta aflição se perde no deleite da revanche. Compaixão é para os fortes, e hoje eu me sinto tão fraca...Experimento o que posso chamar de vitória, mesmo sabendo que estes sentimentos que hoje me confortam, com o tempo irão me destruir. A claridade rubra do fogo da lareira junto com o sangue que desliza pelo piso de madeira preenche o ambiente com mil tons de um vermelho tão intenso, tão obsceno.  A punição é uma arte que meu lobo esboça com louvor. Ao lado da carcaça inerte do meu padrasto o lupino me encara com olhos que não são humanos, nem mesmo são de lobo, duas esferas de transparência impenetrável carregam um segredo tão profano que jamais poderei decifrar. Eu arrisco perguntar:                                                                                
                           Que olhos grandes você tem... – Ele não ousa responder, apenas abre a boca exibindo os dentes desacertados agora lustrosos pela saliva e o sangue fresco. Corri para o quarto a minha frente e deitei na cama arrumada fechando os olhos com força. Senti a cama balançar com seu peso, abri os olhos e não havia mais lobo, somente o homem, meu salvador, meu senhor por direito...
Penso quem contará a minha história? Estarei em fábulas sobre virgens desavisadas e lenhadores destemidos? Quem poderá com notoriedade declamar canções sobre desejo, desgraça e verdade? Pelas falhas nas cortinas de tecidos malcheirosos a lua nos alcança, criando pequeninas colunas carregadas de uma luminosidade insensata, que eu recuso neste momento onde a escuridão é mais segura. As paredes ficaram tão altas que pareço estar em um abismo.
Assim, repleto de luxuria e vertigens se forma nosso leito. Com seus lábios rentes aos meus sinto seu hálito candente, meu príncipe sorri com a boca cheia de fogo. Estaria em seus planos me devorar? Espero que sim... Quero que ele saiba que não a nada que ele queira tomar para si, que já não seja dele. Não há pavor neste fadário inoportuno, adormeço junto ao meu senhor e nos meus sonhos  encontrei o único lugar onde eu poderia ser feliz...Talvez para sempre...

Conto originalmente publicado na antologia  Historias Fantásticas Vol 1 (Editora Cidadella) e Leve-me pela Noite (Sesc) -2010-