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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Luar nas coxilhas


                   
                    Nos campos da coxilha rica onde os pinheiros se erguem ostentosos como pilares de um templo majestoso sem igual. Onde súditos e deuses compartilham a mesma autoridade. No fim de tarde o vento assovia canções que prometem mais uma noite fria. No horizonte o sol se põe fadigoso. Anunciando que logo toda a coxilha estará envolta pelo sepulcro da escuridão noturna.
                   
                  Na frente da casa de madeira a jovem professora observa o majestoso fim de tarde. Um a um seus adoráveis alunos vão se despedindo. Mesmo com a pouca idade partem em suas próprias montarias, como o costume desta região. Outros sorridentes e orgulhosos na garupa junto aos pais. A pequena escola agora se encontra quase vazia, falta apenas o pai de Vitor, o aluno recém-chegado do norte. Na face bucólica do garoto de oito anos, fica quase imperceptível o olhar melancólico e expressão austera que só podemos encontrar naqueles que já conheceram as maldades do mundo .Ele  manteve-se calado durante toda essa semana de aulas. Melissa compreendia,  apesar de ter apenas dezessete anos já leciona nesta localidade desde os treze. É de seu conhecimento que mudanças precisam de tempo para adaptações. Logo ele seria mais um dos seus alunos barulhentos e peraltas, Preocupados com pescarias e torneios de laço. 
Escureceu rápido e agora a lua cheia completava a lista de monumentos do esplendor noturno Melissa foi fechando as janelas. Amontoando as carteiras. Já impaciente pela negligencia do pai do garoto. Vitor pareceu notar tal aflição:
               – Professora meu pai deve estar logo chegando tenho certeza, ele disse que vem!
A frase do menino soou como um desabafo. Melissa ajoelhou-se na sua frente e acaricio sua face.
Na frente do colégio, o cavalou de Melissa demonstrava sinais de perturbação. As patas marchavam sem sair do lugar. A respiração mais rápida formava uma fumaça embranquecida frente as narinas.Algo o incomodava com certeza. Olhando ao redor só campo e pinheiros. A escuridão agora abraçava os horizontes. Melissa conseguia enxergar poucos metros a sua frente.Lembrou de pegar o lampião dentro da escola. Ante de voltar para dentro da pequena casa seu movimento foi impedido por um som que veio dos pinheiros a sua frente.
                – Seria uma gralha-azul, ou um bugio! Esses macaquinhos danados!-. Pensou.
O barulho se fez novamente agora seguido da imagem de dois olhos flamejantes em meios a escuridão das arvores.Melissa sentiu a face gelar.
                 – Pode ser um leão baio, um maldito puma querendo nos fazer de bóia !
Juntos com esses pensamentos veio a lembrança de que a velha espingarda do pai estava ali na cela do seu cavalo. Ela sabia atirar como ninguém.Com passos leves iniciou o caminho até o fiel animal.eram apenas dois metro até a arma. Nem seria preciso atirar contra o temido puma, só um disparo para cima já assustaria o animal. Antes que terminasse o primeiro passo Melissa foi ao chão com deslocamento de ar resultante do ataque da fera ao dócil cavalo. A sua frente uma besta horrível se colocava de pé.apoiada pelas patas traseiras enquanto erguia a carcaça do animal abatido, agora dividido em dois.O olhos da fera pairavam sobre Melissa.O corpo como de um homem. A face de um lobo.
Na escuridão ele sibilava.Este era seu sorriso nefasto.Junto com o uivo horrendo a fera arremessou o que sobrou do cavalo em sua direção.Uma súbita coragem fez com Melissa levantasse antes que a carcaça a atingisse, seguindo pra dentro da escola fechando a fraca porta de madeira.Vitor que estava sentado rabiscando com um giz na mão,olhou com espanto para professora que agora ofegava encostada na porta.
                  –Venha Vitor me ajude a colocar essa mesa na porta –  Um  armário frente a porta foi mais fácil, foi preciso só um empurrão para derrubá-lo.A fera esmurrava a porta e todo o casebre tremia.Apos algumas investida ela desistiu.Melissa e Vitor abraçados escutavam os passos do animal rodeando o colégio. Agora o barulho vinha de cima, do telhado. Em pancadas desacertadas o lobisomem destruía as telhas e rasgava o forro. Em um minuto ele estaria junto a eles. Melissa apavorada junto de Vitor correu para o canto da sala. Não havia pra onde fugir. Soltando do abraço protetor da professora o menino correu até o centro da sala onde começou a rabisca algo no chão com o giz que tinha nas mãos. Exatamente abaixo de onde a fera estava a ponto de despencar. Vitor correu de volta para perto de Melissa. Enquanto a fera despencava para o encontro de suas vitimas. Já dentro da escola o lobo descomunal avançou. E foi impedido por um barreira invisível.Com os olhos cheios de fúria tentou novamente e novamente sentiu o poder da própria força contra si. Melissa contemplou a fera presa em um dos mais improváveis cárceres. Vitor com o giz na mão desenhou um circulo perfeito onde pousava um enorme pentagrama ornamentado por outros símbolos menores que professora desconhecia. O menino surgiu ao seu lado e com a voz suave a acalmou:
                  – Pode ficar sossegada professora ele não vai sair daí.
Ela não respondeu, nem poderia, as palavras fugiram da sua boca assim como os fatos da sua compreensão. A fera permanecia estática no meio do desenho. No desenrolar da noite mestre e aluno adormeceram em um canto da sala. Aos primeiros raios de sol Melissa despertou, e antes de abri os olhos  desejou que tudo o que aconteceu fosse apenas um sonho ruim. Mas não foi.Na escola destruída, onde antes havia uma fera contida por um insígnia antiga, agora estava a figura de um homem sem roupas e sem hostilidade no semblante.Vitor correu em sua direção o abraçando forte em meio a alegria juvenil
                   – Pai!Pai! Eu sabia que você vinha! Eu sabia! Eu disse pra professora !
O homem encarou Melissa.O pavor que ela sentia agora se transformara em fascínio.Sentiu o peito palpitar quando o pai de Vitor a olhava, mas não era medo que ela sentia.Nem ela poderia explicar.Com a voz suave e o filho envolto nos braços ele falou:
                   – Me desculpe pelo atraso, na próxima vez eu venho mais cedo.

Continua...

4 comentários:

  1. Excelente. Armin é uma grande promessa da literatura fantástica!! Dei RT deste conto no Twitter, Armin. (http://twitter.com/opedromoreno)

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  2. Li a reportagem sobre sua obra no Diário Catarinense e vim conhecer o Blog...curti muito..Parabéns...vou adicionar nos favoritos.
    Também sou fã de literatura de terror e horror.

    wagner

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  3. É sempre bom ver o amigo Armin voltando suas atenções aos lobisomens!

    O conto em si é construido com maestria no sentido de lhe conferir ares de "causo" pitoresco, onde os elentos regionais se constituem em um charme a mais.

    Parabéns!

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  4. Pedro Moreno!
    Grande irmão de letras!hehhe suas palavras são de grande valor amigo!obrigado mesmo!conte sempre comigo!

    Wagner
    Sua visita no blog, muito me lisonjeia!
    é sempre bom conhecer novos integrantes da trupe noturna! seja sempre muito bem vindo amigo e vamos conversando...Abraço

    André Bozzetto Junior

    Amigo, oque posso dizer diante de tuas considerações!que são de valor imensuravel pra mim!
    Sabes em quem busco a inspiração para mesclar elementos regionais aos grandes mitos do terror?
    com certeza no talentoso escritor André Bozzetto Junior! hehehehe! por que vc sim amigo o faz com maestria sem igual, tanto que com certeza influencia muito meu trabalho hoje em dia!
    Abraços a todos

    Armin Daniel Reichert

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